Em um movimento que ecoa as crescentes tensões geopolíticas em torno da produção de semicondutores, o acordo firmado entre a administração Trump e a Intel incluiu cláusulas específicas para impedir a venda da sua unidade de fundição. A informação, que passou relativamente despercebida na época, revela a preocupação estratégica dos EUA em garantir a manutenção do controle sobre uma área considerada crucial para a segurança nacional e a competitividade tecnológica.
A produção de semicondutores, ou chips, é o coração da indústria eletrônica moderna, alimentando desde smartphones e computadores até sistemas de defesa e infraestrutura crítica. A dependência de um número limitado de fabricantes, muitos dos quais localizados em regiões geopoliticamente instáveis, tem gerado apreensão em diversos países, especialmente em relação à China e Taiwan (Council on Foreign Relations).
O acordo em questão, que visava impulsionar a produção doméstica de chips nos EUA, foi estruturado de forma a permitir que o governo americano aumentasse sua participação acionária na Intel caso a empresa reduzisse sua participação na unidade de fundição para menos de 51%. Essa condição, aparentemente técnica, representa uma salvaguarda que impede a Intel de se desfazer completamente do negócio, transferindo-o para mãos estrangeiras.
A medida reflete uma mudança de paradigma na política industrial, com o governo assumindo um papel mais ativo na proteção de setores estratégicos. A pandemia da COVID-19 expôs a fragilidade das cadeias de suprimentos globais e acentuou a necessidade de fortalecer a autonomia em áreas consideradas vitais para a economia e a segurança do país (Brookings).
Embora a administração Biden tenha mantido o foco no incentivo à produção de semicondutores nos EUA, é importante ressaltar que as bases para essa política foram lançadas durante o governo anterior. A inclusão de cláusulas restritivas em acordos com empresas como a Intel demonstra uma continuidade estratégica na busca por garantir a soberania tecnológica do país.
A decisão de blindar a unidade de fundição da Intel de uma possível venda levanta diversas questões sobre o futuro da indústria de semicondutores. Será que outros países seguirão o exemplo dos EUA, adotando medidas semelhantes para proteger seus próprios setores estratégicos? Qual o impacto dessas políticas na globalização e na inovação tecnológica? O debate está apenas começando, e as respostas moldarão o cenário da tecnologia nas próximas décadas.